Competente sim, mas não perfeccionista

Marins Bertoldi

Esforçar-se para fazer da melhor forma o seu trabalho é admirável e pode ser crucial para conquistar e manter uma boa posição profissional no cenário competitivo e desafiador em que vivemos. Nenhum problema em ter metas ousadas, porém realistas. Isso significa vitalidade e energia. O perfeccionista, por outro lado, define para si, e muitas vezes para os outros, padrões de exigência acima do que é possível entregar no prazo disponível. Seu próprio desempenho está normalmente aquém do que ele gostaria e não é incomum vê-lo refazer uma tarefa várias vezes. Sai tarde do trabalho, às vezes leva atividades para fazer em casa, negocia prazos a fim de entregar a última versão perfeita e, por isso, está frequentemente exausto. Muitas vezes reclama de sua rotina e da qualidade do trabalho de seus colegas e subordinados que não atendem a suas expectativas irreais.

Na vida do perfeccionista, pode faltar a leveza e a satisfação de quem cumpriu sua tarefa e se encontra no nível médio da qualidade da entrega, mas em paz consigo mesmo. O perfeccionista, ao contrário, encontra-se na maior parte do tempo num estado de frustração e ansiedade por estar sempre na iminência da atividade perfeita, uma miragem que ele busca incessantemente e que acaba por minar-lhe as forças, tornando-o, às vezes, menos produtivo do que o esperado. Por ser tão crítico, o perfeccionista perde o sono por causa de algo que poderia ter feito melhor e compromete o relacionamento com colegas e subordinados porque tem muitos defeitos a apontar e poucos ouvem dele um elogio.

Se há tantos aspectos negativos, porque a grande maioria das pessoas não sente vergonha ou constrangimento em se definir como perfeccionista; pelo contrário, relata sua característica com uma ponta de orgulho?

Possivelmente porque muitos profissionais bem-sucedidos sejam perfeccionistas, embora essa característica os faça sofrer e provoque sofrimento nos outros. Como fórmula que deu certo, esse comportamento vai sendo mantido e reforçado; afinal, se o trabalho consegue ser entregue com qualidade superior apesar da noite em claro, o saldo é positivo e merece elogios e promoções. Porém, o lado obscuro do perfeccionismo mostra que ele pode estar ligado à depressão.

Em um artigo publicado pela American Psychological Association (APA), o psiquiatra Sydney J. Blatt cita um estudo que relaciona o perfeccionismo à depressão e, nos casos mais extremos, até ao suicídio. É, portanto, um preço muito alto a pagar e que envolve o risco de comprometer a saúde, além de outros pontos como a perda de prazos, a inibição da criatividade e espontaneidade por excesso de autocrítica, o afastamento das pessoas que nunca o satisfazem.  Perfeccionistas precisam de ajuda. Se você é gestor de pessoas, comece por reconhecer essa característica na equipe e procure não reforçar comportamentos que levam à busca pela perfeição. Ela não é uma característica humana. Recompense a responsabilidade e a competência, essas estão ao alcance de todos.

A autora, Laísa Weber Prust atua na área de RH do Marins Bertoldi Sociedade de Advogados.