Sistemas de inteligência artificial: coisa do futuro ou realidade imediata?

Marins Bertoldi

A notícia que um escritório de advocacia dos Estados Unidos já adotou um “robô-advogado”, despertou um desconforto no mundo jurídico e fora dele. ROSS, como foi batizado, não fará sustentação oral nos tribunais, como talvez o leitor o tenha inicialmente imaginado.  No escritório de advocacia, ROSS estará à disposição dos advogados respondendo perguntas. Com grande capacidade de processamento, ele é, na verdade, um banco de dados que contém enorme quantidade de informações jurídicas. Tendo um “colega” assim tão douto, é possível economizar tempo com pesquisas na extensa literatura jurídica, necessárias para preparar uma defesa.

A novidade fez com que as pessoas passassem a questionar mais fortemente que profissões sofrerão menor impacto e quais serão extintas quando essa realidade estiver ao nosso alcance, ou seja, quando for economicamente viável implantá-la por aqui, não somente na esfera jurídica, mas em diversas outras.

Kris Hammond, da Universidade americana de Northwestern, especialista em interação homem-máquina, afirma que a crença de que computadores são incapazes de avaliar o que está acontecendo e tomar decisões já pode ser encarada como incorreta. Acredita-se que as pessoas são mais eficazes para essa função, mas, na verdade, elas seriam mais propensas a errar por causa, vejam só, de seus preconceitos – novamente eles cerceando o desenvolvimento humano – que influenciam suas escolhas. Crenças, pressupostos, preconceitos, experiências, percepções e valores têm papel determinante na tomada de decisão individual. Uma série de teorias procuram explicar as ocorrências sistemáticas de erros e vieses que atrapalham os julgamentos humanos. Os interessados em se aprofundar nesta questão podem procurar: viés do excesso de confiança, viés da ancoragem, viés de confirmação, viés da disponibilidade, viés da compreensão tardia.

E as decisões tomadas em grupo, em que se afirma que “duas cabeças ou mais pensam melhor que uma”? Nem assim venceríamos o robô! É claro que no grupo somam-se informações e experiências que geram reflexões mais ricas e profundas sobre problemas complexos ao analisar maior gama de variáveis, gerando por sua vez, mais ideias para o processo de tomada de decisão. Mas ainda nesta situação podem ocorrem fenômenos que prejudicam o julgamento como o pensamento grupal, que ocorre quando os membros do grupo estão obcecados por uma dada alternativa e passam a buscar a unanimidade, “atropelando” a avaliação das demais e a expressão de pontos de vista divergentes e pressionando membros que colocam em dúvida a alternativa preferida da maioria. Assim, aquele que tem dúvida desiste de expor sua apreensão ou até passa a minimizar para si mesmo a importância dela e se mantém em silêncio, o qual será interpretado como concordância e aprovação. O resultado é que pode haver uma avaliação incorreta do problema ocasionada pela busca ineficiente de informações, a ocorrência de vieses seletivos no processamento delas, a geração limitada de alternativas, a avaliação precipitada e incompleta destas, o exame superficial dos riscos, entre outros aspectos que levam a decisões incorretas que, após terem sido tomadas, tem-se a impressão que poderiam ser evitadas e muitas delas, de fato poderiam.

Por tudo isso, é possível concluir que os sistemas de inteligência artificial nos serão muito úteis e terão maior impacto em áreas que requerem a análise de grande quantidade de dados como advocacia, e seu uso será intensificado na medida em que haja recursos. Que o desconforto sirva para nos impulsionar em direção à adaptação a este mundo volátil que vivemos. É um caminho sem volta!

Texto produzido por Laísa Weber Prust, especialista em Recursos Humanos do Marins Bertoldi Advogados Associados, e publicado em seu blog.